" Sou o intervalo entre o que quero ser e o que os outros me fizeram "

segunda-feira, dezembro 06, 2004

O pintor

A ultima fronteira aproxima-se,
O consumar de uma eternidade de ódio, cada vez mais próximo.
A pele cede ao desejo de carnificina,
A vingança falou mais alto.
Que belo é o meu reflexo no rio de águas turvas que escorre agora a meu lado. O encarnado substitui a paz e a guerra interior é consumada em cada golpe, golpes que se sucedem impiedosamente. Assassínio, suicídio? … O prazer não obedece à lei dos homens, é transcendental… Tomara ser anjo para poder arrancar as asas e precipitar-me no chão com toda a força, com toda a vontade de um ego que me odeia… impossível talvez, mas tenho o aço, esse aliado da dor, do prazer, do passado sombrio. Ah o doce sabor metálico do sangue confundido com a lâmina veloz. O doce beijo do metal frio espirrando a parede de sangue, a ira consumada em pinturas surrealistas monocromáticas. Sinto-me como Dali a pintar a tentação, sou O Pintor Original desenhando um fresco na parede do meu próprio quarto com a minha própria essência de vida. Quero conhecer-me… Quero saber quem sou… Argghhhhhhhh… Preciso de me ver por dentro para me apresentar a mim mesmo, o sádico prazer de abrir a caixa de pandora, vejo formas rubras indistinguíveis ao olhar mais incauto, fundo-me com o aço, sou a lâmina que despedaça o âmago do ser. Ah a doce ironia de desfalecer quando a dor atinge o limiar do suportável… Prazer, prazer, QUERO MAIS! Não sinto nada, quero esventrar a alma, essa ainda vive, quero acabar a pintura. As vísceras pendendo da carcaça putrefacta dificultam o movimento, quero chegar mais alto, quero acabar o quadro, quero pintar as minhas memórias, quero mostrar ao mundo toda mágoa que vive em mim, toda a raiva, todo o sofrimento. O apoteótico berro avisa o fim, “ESTÁ COMPLETO”, um novo testamento de dor foi escrito para as gerações vindouras. A aprendizagem começa agora, o meu último suspiro, o princípio do fim. Posso morrer em paz, já não sinto dor, só o prazer orgásmico de me esvair em sangue enquanto espero pelo ceifeiro. Como é bela a obra, como é bom o fim, como é doce a silenciosa morte…