" Sou o intervalo entre o que quero ser e o que os outros me fizeram "

segunda-feira, dezembro 06, 2004

Talvez Morrer

Correr sem parar em direcção a nada
Ambicionar nada
A existência destruída, desmantelada
Despida de ambição, de sonhos
Apedrejada por mãos cruéis…
Sentir o espírito esvair-se de mim
Sentir a alma a abandonar-me,
Enquanto as tuas mãos me sufocam,
Enquanto roubas aquilo que nunca tive
A minha vida…
Desfalecendo, aproximando-me lentamente do fim, agradeço-te, agradeço-te pois a Lua nunca foi tão bela como agora. Nunca tinha reparado nas estrelas, nunca tinha pensado em nada… Tiraste-me algo que nunca tive e no entanto não te odeio, simplesmente ignoro a crueldade do teu gesto. Momentos sucedendo-se à frente dos meus olhos, uma sensação de “dejá vu” apodera-se de mim enquanto não percebo que revejo rostos do triste passado que abandono, o mesmo passado que me ostracizou, que fingiu que não era mais do que lixo condenado a deambular pelo mundo, sem destino, sem um fim… Ah, que lufada de ar fresco, que divinal fim precoce, o primeiro dia do resto da minha vida, o promotor da ressurreição. Ter que morrer para renascer das cinzas, o presente que me deste, quando decidiste ignorar as minhas súplicas. Todo um Mundo de sensações e momentos de amor que ofereci, rejeitaste tudo o que tinha para te dar e escolheste o universo da dúvida. Obrigado… OBRIGADO, por me magoares, feriste-me os olhos, o coração, a alma… fizeste-me acordar para a vida, para um novo tempo, fizeste-me reparar na beleza que me rodeia, uma beleza longínqua, talvez de avalon, enviada pelos deuses para apagar as más recordações da vida que nunca me roubaste pois nunca a tive… Oh poder contemplar a perfeição, pedir desculpa a tudo o que ignorei por estar demasiado obcecado com uma jornada de autodestruição, numa jornada de auto descoberta através da dor. Conheço novos limites da minha personalidade, criei um novo eu, um novo ser…alguém que não merece morrer, alguém que deseja mais um dia para mostrar toda a dimensão de um sentimento morto na face da luz. Obrigado…
Obrigado por me teres deixado contemplar a lua,
A última visão, no último segundo,
Sonhar uma vida melhor, no meu último momento…
Acabou-se a dor, acabou-se o sonho,
A alma deixou-me e levou o sofrimento.
Ficaram as recordações, os desejos de uma nova vida,
Foi bom o breve sonho de ressurreição,
Para uma vida que nunca será sentida.